Como tornar visível o devir invisível da cor?


Alguns aspectos se me afiguram como potencialmente reveladores desta pintura, deste durar da cor que faz ver o que talvez se mostra apenas quando já não se vê, quando os olhos deixam de ter a sua função para devirem variação com a cor...os motivos apresentados parecem relacionar-se com esta duração da cor, este devir, período de tempo não quantificável, porque se constitui do que intrinsecamente se diferencia. Assim, as Estações, por exemplo, não representariam uma determinada configuração das coisas que sucederia outra e que precederia outra ainda. A duração-processo encontra-se antes na maneira como a cor vai ocupando em variação o espaço; a geometria parece constituir-se aqui no modo como a cor vai formando um desnivelamento intensivo ao longo do tempo. 

Como tornar visível o devir invisível da cor?

Um tremor imenso percorre esse espaço-tempo, esse mundo de forças oceânicas, cósmicas, desses abismos sem fundo; o corpo torna-se uma vibração sem figura nem contorno de encontro a essas forças vivas “e tanto mais vivas quanto mais inorgânicas”. É como se o movimento livre desse fluxo de cor passasse para a superfície sem perder nada da sua mobilidade...a cor, multiplicidade infinita, devem desmaio, contorno indefinido...as figuras desfazem-se em vibrações, os gestos-movimentos não estão capturados, estáticos, mas continuam na sua diferença rítmica: cor, tempo, gesto, ritmo, plano multidireccional, relação viva das forças intempestivas do "caosmos". 
E se por um lado essas forças são termo-dinamismos, acelerações imperceptíveis e lentidões glaciares, são também elas que constituem o inconsciente. Haveria assim uma relação secreta entre os temas invocados, os processos que a cor cumpre e que a cumprem, e as forças que cruzam o inconsciente.  Seguir a linha traçada por esta relação: devir-arte. 

Helder Guimarães

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